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rinse me down
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ah, como eu gostaria de esquecer os ponteiros.
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a vida acende em mim certezas invisíveis…
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22desetembrode2011
escuto risadas e é tudo amarelo e vermelho, do jeito que você gosta. passos em volta, a minha fantasia circula essas ruas e a música que imagino faz cócegas nos meus pés. o frio que percorre a espinha me mantém ereta e sã, queria lágrima, mas desço a ladeira sem perturbação aparente. queria entrar na boca das pessoas, espiralar o céu delas. ele grita “open you eyes” cheio de rouquidão e as luzes dos carros me cegam de alegria. ainda não avistei os bares, mas sinto o ritual dos copos e corpos, dança frenética e assustadora.
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baba
acho que é o medo do escuro o que reverbera nessas paredes brancas. de leve apenas essa camiseta desbotada que sinto macia na pele, último presente de um amigo já morto e enterrado. é o medo do silêncio demorado, de um silêncio que possa se estender bem mais do que o desejado. m e d o. conhece? sentiu ontem, hoje? sente diariamente um frio que não te faz levantar, mas que te congela? já sentiu paralisia? já balbuciou o nome Dele sem querer querendo? Já inventou uma fé escura, úmida e invisível que te salvou por alguns minutos? é. você sabe do que estou falando também. continuemos distantes. sente a baba escorrer enquanto olha a parede branca tão vazia de sentido.
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uma dose de absinto, por favor
Você nunca teve a sensação de perder o ar, sentir algo morto dentro que começa a feder e aí é necessário expelir aquilo o mais rápido possível? Eu queria expelir Ana de dentro de mim, mas não posso, não consigo. Aí, quando vem a falta de ar novamente, ou quando imagino formigas gigantes me atacando o estômago e cuspo sangue pelo chão do banheiro, eu começo a chutar portas e quebrar vidros. Eu pego mais uma vez o estilete da última gaveta e faço pequenos cortes no antebraço. Que alívio, penso e sinto. Que alívio momentâneo, eu penso, mas ainda não sinto, porque o alívio continua por um tempo considerável, mas eu sei que amanhã vai ser aquela jornada filha da puta, aqueles mesmos rostos mortos me olhando sem olhar, aquele ar comprimindo orgãos, a chuva incessante não fertilizando nada, os homens de rua sendo invejados por mim, com a sua luta por sobrevivência, às vezes anestesiados pela dor, às vezes não. O mau cheiro me provocando ânsias e náuseas terríveis, o mau cheiro do centro da cidade que não sei bem onde começa e onde termina, as substâncias invisíveis vão subindo, se misturando às blusas das passantes, ao meu rosto, a tudo. O cheiro. É uma mistura do quê? Como surgiu esse cheiro? Essas manchas escuras nas calçadas imundas, os mendigos cobertos por colchas maltrapilhas e fedorentas, como conseguem meu deus? E depois o sol vai secar esse molhado e o cheiro retorna ainda mais forte e violento. Invasivo. As bactérias felizes instalam-se em minha pele. O meu asco já é insuportável. Eu quero uma porta pra chutar, um rosto pra socar, uma alma pra expulsar. Eu quero Ana novamente. Sorrindo e perfumada, com uma saia rendada. Ana. O cheiro de urina é o que predomina nessa parte do trajeto. Porcos. Ninguém se incomoda. Qual é o barato de ser ser humano? Me pergunto ao ouvir “Desculpe”, de Arnaldo Baptista. A bateria do meu ipod já foi pro beleléu, e só me resta fingir não ouvir o barulho dos carros, dos busões, das buzinas infernais.
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experiência
Sempre quis acreditar nos starts. É, nos começos. Nas juras. Nos beijos apaixonados; mas nunca quis acreditar nos endings. É, nos finais. Nas quebras de promessas. Nos tapas raivosos. Nos adeuses. O plural disso é tão ruim. Fiquemos com um único adeus. Ah, não, não quero adeus nenhum. Bem, mas como querer nunca bastou, e nunca significou muita coisa, eu quis e desquis e isso não me levou a lugares melhores. Sempre quis isso, nunca quis aquilo, e parei num nada imobilizante. Num mar morto. E aí meus starts viraram endings sem capítulos nem pausas vírgulas ou respiros. Foi como apertar o play num gravador e nada escutar, nem mesmo o respiro de alguém, um barulho sequer. Nada. Vazio. Mas a fita tá lá, indo de um carretel para outro. Ao fim desse nada você não tem história para contar, e nem canção para recordar.
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Ao vento
Lembra quando a gente conseguia tocar o vento? E ria junto dessa sensação mútua, eu sentindo em você o vento entrar e sair e de mim saía e entrava uma coisa tão bonita e boa. Lembra Pablo? Os teus cabelos voavam em direção contrária, o teu sorriso invadia a tarde, a nossa estrada não tinha fim. Tocava Elis. Eu me lembro bem. E até hoje não entendo como uma percepção tão real do que era felicidade transformou-se em ausência e culpa. Na minha cabeça de menina ingênua só a morte poderia desfazer aquele laço. E não era um laço abstrato, feito de vento não. A nossa amizade tinha uma base tão sólida, o nosso sexo um sumo tão vivo, colorido, intenso. Me lembra o dia, o instante, o segundo em que alguma peça foi retirada do seu devido lugar. Se esforce você também. Não deixa esse peso todo comigo. É a décima carta que eu te escrevo em menos de um mês, e você completamente absorto nesse apartamento vazio. A tua covardia cortou o fio do telefone, a tua covardia não quer me ver, não é você quem não quer. Eu sei que estou sendo lida; e quista. Não finge seu sacana maldito. Sou capaz de subornar o porteiro para ter alguma notícia tua. Enquanto você tenta me vencer pelo cansaço, os teus amigos estão indo embora. Não quer saber de algum deles? Você quer se afogar nesse vazio e fechar os olhos, covarde, covarde, covarde. Tá vendo essa mancha aqui? É sangue filha da puta. É sangue e eu quero te assustar. Sai desse coma em que você entrou. Vem porque os meus braços ainda estão quentes, o meu corpo ainda está macio. Meu sangue escorre. Minha raiva e meu amor crescem em proporções iguais. Não sei mas é assim. Não desapareça assim. Eu quero te abrir, eu quero tirar toda essa lama, eu quero cuidar de você. Eu até entro nesse inferno em que você se colocou meu amor. Eu até me desfaço de bens preciosos. Eu até… entro na tua loucura e fico nela.
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Sou uma mentirosa.
É porque eu queria ele ali comigo entende?! Se fosse necessário mentir, tudo bem. Queria assustá-lo Larissa. Assustá-lo pra valer. Eu sei que estou sendo lida. Eu sei que ele não resiste e abre todas as minhas cartas. Eu juro que me cortei e manchei a carta de sangue. Eu estou no meu limite e quero ele de volta.
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—- novelas.
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terra batida
Sempre perde para o corpo. Nasceu sem “longa vida” prometida. Nasceu sem saber que lhe faltaria energia vital, para produzir, reproduzir, germinar.
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Ninguém vê
Existe algum talento, é claro, mas você ainda não descobriu. Teu corpo é inflexível, você debocha das expressões no espelho, relembrando as máscaras sociais que utiliza sem prazer. Se esconde, foge, se enche de vergonha porque é cheia de orgulho. Vão. Em vão. Dança pra si e para uma plateia imaginária, e se entristece ao recordar daquele palco vivo da infância, quando tropeçou diante de muitos, e quis cavar o buraco mais fundo naquele instante de torpor e vexame e inglória apresentação. Ninguém poderia te ajudar naqueles minutos constrangedores, o joelho esfolado, o suor escorrendo naquele rostinho vermelho de ódio e medo. O sapato apertado incomodando, sua vontade de explodir e partir. Pois bem, voltemos ao espelho e aos teus dias atuais de puro ego machucado em momentos que passaram, mas que você insiste em reviver diante de quartos inorgânicos. Teu corpo nunca mais brincou de correr pela praia [depois do palco e os seus cacos]. Restou essa coisa dura mas ainda tão bela para quem observa à distância. Quanto mais enaltecem o teu jeito misterioso e inatingível, mais você planeja outros planos de fuga, de fundo do poço, de escuridão sem fim. (…)
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Sobre a morte
E eu vislumbro o teu corpo de longe, com medo da aproximação. Inevitável será aproximar-me, sentir o cheiro podre da tua pele, perceber que já está débil e que não reconhece mais o meu rosto. Ver a tua expressão nítida de dor e querer morrer não junto, mas separado disso. Tudo aqui lembra morte. O cheiro de hospital me aniquila, vai me cercando e ruindo com o resto de positividade que eu tinha antes de adentrar o corredor branco. Não posso Julio, não posso aguentar. Não consigo. Mas eu entro, me aproximo, toco o teu braço de leve, com medo e asco; com medo de que essa tua morte me invada também, e que eu fique petrificada para sempre. Dura. Seca. Estúpida, amorfa, imóvel, abobada. Você não quer saber do meu rosto ou da temperatura da minha pele, teus olhos até tentam alcançar os meus, mas o que existe é apenas a tua dor; não há mais espaço para vida. A dor preencheu o teu corpo inteiro. Você aponta para a bexiga, o fígado, o rim, eu não sei bem. O lençol tampa um pouco as partes, mas muito pouco. Eu não ouso olhar. Eu solto palavras no ar, sabendo que você não escuta. Eu falo baixinho. Eu não sei o que dizer. Não posso dizer “é isso, você está morrendo, e nem me reconhece mais, acabou, essa doença acabou com tudo”. Eu apenas sussurro imbecibilidades e obviedades do tipo “como você está” e “calma, vai ficar tudo bem”. Não ficou tudo bem. Não está tudo bem. Você se balançava em meio aos tubos, estava amarrado e isso o angustiava. Eu, eu não podia fazer absolutamente nada. Não tinha coragem nem de passar a mão longamente na tua cabeça, fazer um cafuné. Sim, minha alma jovem é tosca e não conhece a força desses carinhos banais. Eu continuei ali, parada durante breves minutos, e me afastei. Retornei no dia seguinte para observá-lo já morto, quer dizer, não você, você não estava mais ali, mas a tua carcaça, a carne morta, o que ficou. Sangue saindo pelos ouvidos. Boca aberta, os dentes à mostra. Eliana tentou fechar a boca, a tua, mas não havia jeito. A enfermeira já havia tentado, em vão. Estava cansada do hospital e da tua morte, sabendo que ainda iria enfrentar a despedida final, com flores e abraços apertados.
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